Publicado por: Bernardo Annechino | 13/10/2011

Menu Degustação: Podcast The Minimalist by NYT

Podcast The Minimalist by NYT
Basicamente quero fazer todas as receitas dele

De tempos em tempos fico fuxicando a internet atrás de um novo programa, de uma nova coleção de vídeos de receitas, de novas dicas… Enfim, qualquer coisa pra me ajudar a matar o tempo na ponte aérea, gastronomicamente falando, é claro. Foi numa dessas pesquisas que dei de cara com um podcast simplesmente sensacional produzido 100% em vídeo pelo jornal The New York Times. Divertido, rápido, simples e direto, filmado de forma absolutamente descontraída mas com receitas que aparentam ser deliciosas, e me obrigaram a favoritar várias.

O podcast chama-se NYT’s The Minimalist e está disponível totalmente DIGRÁTIS na loja do iTunes americana. Basta assinar ao podcast e praticamente a cada quinzena tem um vídeo novo pra degustar. Eu fiquei viciado.

Publicado por: Bernardo Annechino | 10/10/2011

Por minha conta: Boston Baked Beans (ou feijões caramelados)

Boston Baked Beans (ou feijões caramelados)
O dia em que abusei completamente da licença poética pra criar um prato

Adoro Boston Baked Beans, aquela versão americana de feijões condimentados e ligeiramente adocicados que costumavam alimentar até a alma dos cowboys que desbravaram o oeste. Adoro improvisar receitas, misturar os ingredientes que tenho a mão em casa e criar uma versão nova para um prato. Mas dessa vez fui longe demais na adaptação e não sei nem se o prato pode ser reconhecido ou chamado pelo seu nome original. Foi a minha inspiração é verdade, então mantive o nome apenas para propósitos de identificação com o que queria fazer. Na falta do melado de cana da receita original, usei mel. Na falta de tempo para aguardar o forno fazer a sua parte, usei o cooktop mesmo. Na impossibilidade de usar toucinho, fui de linguiça chorizo. E acabei com uma versão deliciosa de um feijão branco apimentado, reconfortante e levemente adocicado para uma noite fria (desse inverno carioca atípico). Talvez o mais justo seja batizar de Barra Baked Beans.

Para não deixar os puristas de cabelo em pé, faço questão de publicar aqui também um vídeo com a receita original, pilotada pelo divertidíssimo Chef John (uma celebridade entre os foodies americanos e unanimidade na internet). Antes, a minha versão adaptada, com toda a licensa poética que você puder me conceder.

Barra Baked Beans
Serve 4 pessoas

Ingredientes
- 2 latas feijões brancos
- 1 clSP de pimenta chili em pó
- 1 clc cuminho em pó
- 1 fl louro
- 1 dente alho
- 1/2 cebola picada grossa
- 1 xc de linguiça chorizo em cubos
- 1/2 lata tomate pelado
- 1/2 xc mel
- 1/2 xc caldo de legumes
- sal e pimenta a gosto

Preparo
1. Aqueça uma penela grande e refogue os cubos de linguiça sobre fogo médio, até que começem a criar uma “casquinha” na superfície;
2. Nesse ponto acrescente as cebolas, o alho e o louro e deixe refogar por 5 min, somando em seguida os feijões escorridos e lavados, e todos os temperos;
3. Continue refogando sobre fogo médio até o feijões adquirirem um tom dourado e some o mel, mexendo rapidamente para incorporar;
4. Reduza o fogo, acrescente os tomates, sal e pimenta do reino, e metade do caldo de legumes, tampe a penela e cozinhe por cerca de 30min;
5. Prove o sal e corrija se necessário, verificando também se há necessidade de acrescentar mais caldo, caso esteja seco;
6. Coznhe com a panela destampada por mais 10 min e sirva em seguida.

Toque de Aprendiz:
uma versão mais autêntica 

Publicado por: Bernardo Annechino | 17/08/2011

Por minha conta: Pizza doce caseira

Pizza doce caseira
Um café da manhã rápido e delicioso que fica bom a qualquer hora

Esses dias finalmente um dos meus desejos foi realizado: tenho um mercado a distância de 2 min de caminhada da minha casa. Isso significa visitas quase diárias para escolher o menu da casa. Tem coisa melhor? Logo na minha primeira visita dei de cara com uma fresquíssima e linda caixinha de framboesas. Estavam numa cor extremamente atraentes, e algo que é raro de se encontrar em framboesas de mercado, estavam intactas. Não sabia exatamente o que fazer com elas, mas apelas senti uma força cósmica direcionando minhas mãos a elas e logo em seguida ao caixa. Estavam na sacola a caminho de casa.

Chegando em casa, como já estava um pouco tarde para um simples café da manhã e tinha uns pães árabes lá dando sopa, resolvi preparar um pequeno rodízio de pizzas caseiras pra Patroa. Tudo bem simples e com o que tinha na geladeira. Um pouco de molho de tomate, uns queijos, presunto… E as framboesas olhando pra mim. Foi aí que tive um estalo. Porque não tentar uma pizza doce usando essas delícias? Cata daqui, cata de lá e descolei mais alguns outros ingredientes que podiam dar liga. Um creme de ricota, um pouco de vinho branco, açucar e fui gostando das combinações. Depois de preparada, assada e devidamente provada, pela Patroa, veio o teste final. Dudinha, do alto do seu 1 ano e meio de vida, assistindo-nos virar os olhos a cada mordida, abriu a boca o máximo que conseguiu e deu a ordem: “Qué”. Como negar? Tirei um pedacinho, ofereci e em resposta recebi um delicioso e largo sorriso seguido por outra ordem: “Ais” ou seja, mais. Ela repetiu e adorou. Já tinha o veredito. Receita incorporada ao meu arsenal e com excelente potencial para ser compartilhada aqui. Vamos a ela.

Pizza doce de framboesas com ricota
Ingrendientes
- 1 pão árabe
- 4 clSP creme de ricota
- raspa de 1/2 laranja
- 2 clSP vinho branco
- 3 clSP açucar
- 1 xc framboesas frescas

Preparo
1. em um bowl coloque as framboesas, o vinho branco e 1 clSP do açucar e deixe macerando;
2. após 15 min, escorra o líquido das framboesas transferindo-o para outro bownl onde deve ser totalmente incorporado ao creme de ricota, às raspas de laranja e a outra clSP de açucar;
3. misture bem até formar uma pasta homogênea e não muito líquida, para que não escorra do pão;
4. espalhe bem a mistura de ricota por toda a extensão do pão árabe e distribua por cima todas as framboesas;
5. polvilhe o restante do açucar e leve ao forno bem quente (pré-aquecido a 220ºC), diretamente na grade do forno para conseguir uma consistência crocante na massa, até que as bordas do pão comecem a escurecer (cuidado para não queimar);
6. retire do forno, corte em 4 fatias e atacaaaar!

Toque de Aprendiz:
Não tinha a mão no momento, mas certamente se tivesse, o complemento perfeito, ao invés da última polvilhada de açucar seria uma boa clSP de raspas de chocolate branco, para ir por cima das framboesas. 

Publicado por: Bernardo Annechino | 18/07/2011

Paguei pra ver: Alessandro e Frederico – Rio Design Barra

Alessandro e Frederico – Rio Design Barra
Quando tudo dá errado, alguma coisa não tá certa

Domingo é sempre um dia de aventuras gastronômicas. Aventuras no mais amplo sentido da palavra. Os restaurantes estão cheios, as ruas estão cheias, e invariavelmente eu estou cheio de fome. Meu velho avó, meu eterno Comandante, dizia que a fome é o melhor tempero. Mas aprendi a duras penas que também pode ser o pior estopim, desencadeando uma explosão de frustrações quando alguma coisa dá errado. Quando fui ao Alessandro e Frederico do Rio Design Barra a idéia era uma restaurante especializado em carnes, preferência da Vó Tatá, companheira do dia. Como estávamos com a pequena Duda, também precisaria de espaço pra ela brincar enquanto almoçávamos. Churrascarias foram logo descartadas por causa das intermináveis e tradicionais filas. Quando a Patroa sugeriu o dito, pareceu uma boa alternativa. Gosto da mesa de antepastos, não dos pratos. Mas confesso nunca ter provado grelhados. Seria uma boa oportunidade.

Chegamos ao local nostálgico onde antes funcionou o finado Ponderox, que gerou muita discussão aqui no blog (veja aqui). Eu cheguei munido de fome e certa dose de paciência. Já sabia que a espera era iminente. Na porta um pequeno tumulto, com as hostess de certa forma enroladas. Demos o nome e fomos para um lounge, onde pipocas frias e murchas eram o cartão de boas-vendas. E nem que imaginar a quantidade de mãos que já tinham acarinhado o petisco antes de nós. Até que a espera não foi grande. Deu tempo da Duda fazer algumas gracinhas pra um casal de senhores que esperava na nossa frente e de pedir as bebidas.

Encaminhados pra mesa pedimos uma cadeira infantil. Veio uma com o cinto de segurança quebrado, faltando a parte que o fixava no assento. Pedimos outro. A simpática, pra não dizer o contrário, atendente nos informou graciosamente que todas as cadeiras estavam assim. Muito bom para um restaurante que tinha meses de inaugurado. Deve ser pela alta frequência de vândalos e delinquentes dispostos a pagar R$ 50,00 por um sanduíche. Mas piora, e muito. Irônico, perguntei o que faríamos com a criança então, já que a cadeira de nada servia. A resposta dela foi a cereja do bolo: “Não posso fazer nada”. Deu de ombros e saiu andando. Não sei se em represália a isso, ou por pura incompetência mesmo, mas ficamos cerca de 20 min, sem ver qualquer sombra de atendimento. Nem pra oferecer um couvert, nem novas bebidas, nem mesmo pra nos deixar o cardápio. Fome aumentando inversamente proporcional à paciência é uma combinação perigosa.

Finalmente quando conseguimos lassar um garçon, pedimos o couvert e o cardápio. De pavio curto, não quis inventar e fui de Bife de Ancho com batata assada. Vó Tatá escolheu uma picanha com batata frita e a Patoa um peixe da sugestão do dia. Mesmo sem o atendente nos perguntar, fiz questão de informar o ponto da carne: mal passada pra mim, ao ponto pra Tatá. E mais uma espera interminável sem qualquer sinal de atendimento. Depois de mais de 40 min de espera, e vários “fingi que não vi” dos garçons, consegui literalmente pegar um pelo braço e explicar nossa espera de mais de meia hora, ao que ele candidamente me respondeu: “É senhor, estamos com um problema na cozinha, o chef não veio hoje e realmente tá meio enrolado, tá demorando a sair”. Pô! Agora que você avisa, camarada? E só restava esperar mais. E mais.

Depois de tanta espera e mau humor nas alturas, a comida deveria ser no mínimo divina pra compensar minimamente todos os erros de atendimento. Mas àquela altura do campeonato já não tinha mais essa inocente esperança. Esperava apenas comer e sair dali o quanto antes. A comida chegou para aliviar a fome e incendiar os ânimos. Minha carne, que havia pedido mal passada veio esturricada. Sério, com marcas negras de queimado por fora e absolutamente nenhum traço de humidade por dentro. Parece que foi na usina nuclear pra cozinhar e voltou. O garçon visivelmente atrapalhado e constrangido me petguntou se queria que refizesse o prato. Estava esperando o Serginho Malandro sair de trás de alguma mesa e gritar: “Rá, Pegadinha do Malandro!”  Era de verdade. Foi duro de engulir. A carne e todos os outros deslizes. Péssima experiência que me fez sentir saudades do antigo locatário do espaço, que pelo menos no começo era bom. Tão ruim que me fez inaugurar uma nova categoria de avaliação:
:_( – De chorar…

Trocando em Miúdos
Alessandro e Frederico
Onde: Shopping Rio Design Barra – 3º andar
Tipo: Variada
Comida: :_(
Ambiente: :-/
Serviço: :_(
Conta: $$$$

Publicado por: Bernardo Annechino | 31/05/2011

Paguei pra ver: Bouley (NYC)

Bouley (NYC)
O melhor custo/benefício de New York

Que os preços de comida no Brasil estão exorbitantes, todo mundo já sabe. Que comer em bons restaurantes no Rio de Janeiro virou luxo para poucos, também não é novidade. Mas e quando você, pelo preço de uma refeição no Outback do New York City Center, consegue almoçar em um restaurante estrelado pelo Michelin em New York (a cidade mesmo, real, com a Estátua da Liberdade em tamanho natural). Aí você começa a refletir… Foi exatamente essa experiência que tive na última ida a Big Apple. Por U$45,00 é possível desfrutar de um especialíssimo menu de 5 pratos no espetacular Bouley, ali entrincherado no meio de Tribeca, cheio de charme.

Com uma decoração pra lá de extravagante com uma parede inteira de maçãs de cera na entrada, onde duas poltronas fazem o úncio preâmbulo para um salão confortável e aconchegante, com pinturas de paisagens tipicamente francesas emolduradas em quadro recobertos de plush, tem um toque “kitch” bem legal. Um enorme adorno com galhos de cerejeira com seu rosa pálido faz conjunto com objetos pessoais que recriam a sala de estar de uma casa do interior da França, mas com um ou outro toque surreal. É algo perfeitamente classificado entre o brega-chique, que beira o divertido, mas acima de tudo criar uma atmosfera de total aconchego.

Depois de perder nosso trem de Boston para NY e chegarmos atrasados, esbaforidos e famintos, com medo de perder a reserva que a todo momento achávamos que não passaria de uma pegadinha e jamais coseguiríamos esse almoço por esse preço, nada melhor para nos acalmar do que a atmosfera do restaurante e o serviço amável. Ah, uma refeição que nos levasse ao paraíso também não seria nada mal. E se o menu inteiro não chegou a isso, pelo menos um prato foi absolutamente espetacular, a ponto de rivalizar garfada a garfada com um dos recém eleitos favoritos pratos do Daniel, 4 dias antes (veja o post aqui). Mas vamos à sequência de pratos.

Amuse Bouche
Creme de abóbora assada com amêndoas e crocante de açucar com pinolli

Poderia rivalizar com a espetacular façanha da Fada Madrinha, em transformar uma abóbora em algo muito maior. Era um creme de sabor delicado e evolvente, reconfortante e ao mesmo tempo desafiador, pelo toque inusitado do crocante (vermelho) com as pinhas. Cada garfada era uma gemida. Cada gemida era a certeza de que cada centavo ali já teria valido somente por esse prato.

Entrada Fria
Aspargus branco e verde com creme de queijo
Esse foi o pedido da Patroa, e estava tão entretido com meu próprio prato que acabei provando uma lasquinha do dela. A sequencia com o prato anterior pareceu bem casada, e o sabor claro dos aspargus fresquíssimos era perfeito. O creme de queijo acrescentou pouco.

Trio de carpaccio: kampachi, atum e olhete com molho mediterrâneo
O molho mediterrâneo com suas notas frescas e cítricas era o que fazia o prato funcionar. O frescor e a untuosidade dos peixes era combinada na boca de uma forma que preenchia todas as notas do paladar. Se comparado ao prato similar que provei no Daniel, esse fica na frente.

1º Prato
Flan de cogumelo porcinni com carangueijo e caldo de dashi trufado

Esse foi o motivo mais forte que me arrastou até esse menu (ah, o precinho camarada também). E foi absolutamente surpreendente em todos os momentos. Tudo que eu havia projetado e imaginado dele caiu por terra, para se construir numa versão materializada melhor do que minha cabecinha desenhou. Primeiro o flan, longe de ser aquela tortinha gelatinosa com a textura de sobremesa de hospital, era um creme denso, consistente e espesso, que cobria toda a boca com seu sabor cristalino de cogumelos. A carne de carangueijo, em pedaços grandes e genorosos de sabor adocicado e delicado não era nada perto do desfiadinho que passava pela minha mente. E o caldo de dashi, ao invés de ser aquele toque exótico oriental distante, era justamente o que estruturava toda essa combinação, com as notas cítricas e salgadas. Poderia comer esse prato o dia inteiro e ainda assim descobrir novas notas de sabor.

Prato Principal
Pato com aspargus e porccini
O legal dos pratos principais é que ambos traziam elementos de garfadas anteriores, como o aspargus e os cogumelos nessa pedida da Patroa. O sabor do pato, o ponto de cozimento e a textura estavam perfeitos. E a combinação de frescor dos aspargos com a pugência dos cogumelos arredondava tudo.

Frango sous-vide com ravioli de abobora
Pedi mal. Aliás, tô ficando especialista nisso, como na vez em que fui ao Le Bernardin (veja o post aqui). Não que o prato estivesse ruim. Mas era frango. E sous-vide (cozimento a vácuo em baixa temperatura). Não podia ser nada surpreendente. Minha real escolha era um cordeiro, que infelizmente tinha acabado. Os raviolis estavam deliciosos, leves, adocicados, mas lembravam demais o primeiro prato, parecia repeteco. Tudo bem que adorei o creme, mas queria provar algo diferente.

Sobremesa
Chocolate
A Patroa pediu uma avalanche de chocolates. De todos os tipos, preparos e texturas. Pior pra mim, que com aquela dose toda iria ficar quase 6 meses sem sexo (brincadeira tá, foram só 2). Ela se esbaldou e eu lá, todo blasézão…

Queijos
É uma coisa que venho mais e mais preferindo. Uma tábua de queijos aos doces. Completam muito melhor minha refeição e ainda me deixam no paladar notas menos unilaterais com o acompanhamento sempre importante de elementos cítricos e doces. Adorei.

Publicado por: Bernardo Annechino | 13/05/2011

Paguei pra ver: Daniel (NYC)

Daniel (NYC)
Um prato inesquecível entrou na galeria dos meus Top5

Na vez que estive em NY, anterior a essa, tive uma noite mágica em um restaurante 3 estrelas Michelin, o Per Se (veja post aqui). Não só pela comida, mas por toda a atmosfera que envolveu o jantar, da reserva à visita à cozinha, sempre com atendimento impecável. Dessa vez, quando decidi voltar a Big Apple visitar outro restaurante estrelado, não tinha a menor pretensão de repetir aquelas sensações. Foram únicas, e acho que é assim que deve ser. Aliás, foi exatamente assim que aconteceu quando visitei o Daniel, do Chef Daniel Boulud. Praticamente tudo fez contraponto ao Per Se, exceto a qualidade da comida. Essa sim, foi um grande ponto alto.

Já na chegada percebemos que a noite seria praticamente um contraponto a tudo o que experimentamos no Per Se. Ao invés de um shopping luxuoso no centro de Manhatan, uma casa calma e descolada no outro lado do Central Park. Ao invés de um ambiente discreto e aconchegante, um salão amplo com toques bem modernos na decoração com elementos orientais. Os belos lustres que adornavam o teto quase nú do salão eram realmente um toque de sofisticação que se integrava com as figuras grandes de samurais em pinturas nas paredes. Enquanto aprontavam nossa mesa, espera que não aconteceu  no Per Se, provamos alguns drinques no pequeno bar que precedia o salão. E as comparações pararam por aqui. Prometemos, a Patroa e eu, que não ficaríamos opondo cada prato ao Per Se. Então, vamos à deliciosa sequencia do menu degustação, precisamente apresentada pelos atendentes em explicações claras e frios, sem o mesmo ar de intimidade do Per Se… Ops, foi a última comparação.

Dessa vez, como o menu permitia algumas opções, a Patroa e eu tentamos pedir pratos diferentes para poder provar um pouco mais da cortejada culinária do Chef, que foi o único que vi no salão de seu restaurante em todos os restaurantes que visitei em NY.

Amuse Bouche
Aspargos com vinagrete / creme de ervilha com hortelã / salmão defumado com purê de cenoura
Que maneira de começar a noite! Cada componente do prato, apresentando numa séria de 3 perfeitos bocados, era perfeitamente pensando para preparar o paladar para o bocado seguinte. Poucas vezes me lembro de ter apreciado tanta uma combinação de vegetais como esse creme de ervilha. Queria lamber a colherzinha. E só não pedi mais porque fiquei na dúvida depois que provei o purê de cenoura.

Entrada Fria
Terrine de pato encrustada com pistache, pickles de cenoura, ruibarbo confitado em água de rosas e gelée de cardamomo
Quando nos apresentou esse prato, antes de pedirmos, o atendente explicou que a terrine na verdade era totalmente foie gras. Nessa hora os olhos da Patroa brilharam. E não nos arrependemos um milímetro. Foi a melhor terrine que já provamos, e diferente de outras, desmanchava na boca e preenchia o paladar por completo. Comi com a calma e paciência de um sábio chinês, tentando fazer cada garfada render uns minutinhos a mais de prazer. Confesso que o gelée era mais decorativo do que efetivamente um componente de sabor do prato, mas os outros dois acompanhamentos eram deliciosos. O pickles e o ruibarbo tinham ambos sua característica agridoce que finalizava perfeitamente a untuosidade do foie gras. Terminei o prato querendo fazer uma reserva para o Bar Boulud, onde o mesmo chefe serve famosas tábuas de charcuterrie.

Salada
Salada de caranguejo com coulis de cenoura e cominho, abacate, crocante da perna de caranguejo e folhas frisee
Olha novamente a cenoura aí. Acho que era o fetiche da temporada pro Chef. Mas ela não era a estrela do prato. Era, sem dúvida, o caranguejo, mas em especial o crocante. Pode parecer uma sensação de realização estranha pra quem viajou milares de km pra comer num restaurante de Haute Cuisine, mas fui praticamente transportado para um quiosque na praia de Copacabana, onde comia o melhor pastelzinho de siri. Crocante, delicioso e estranhamente familiar. Adorei.

Trio de hamachi: curado com ervilha e bergamota / tartar com limao, caviar e creme fraiche / confit com azedinha, palmito e coulis de agrião
Um dos pratos tradicionais do chef. Foi o que menos se destacou na noite. O tartar com limão e caviar, e uma boa colherada de creme azedo me encantou mais. Uma coisa que tenho é preconceito quando vejo palmito em algum cardápio fora do Brasil. Tenho sempre a sensação daquela conserva aguada, insossa e salgada. Infelizmente, estava certo.

1º prato
Vieiras sobre cama de manga ao tempero tandoori e shiso-mango gremolata
Essa foi a estrela da noite. Um prato absolutamente inesquecível, que imediatamente após a primeira garfada se agarrou na minha memória gustativa como uma bala juquinha no bloco do dente. Metáforas infelizes a parte, fiquei meio inseguro quando pedi, por não ser fã de manga. Mas ela era fundamental no prato, dando um toque exótico e ligeiramente cítrico a uma combinação absolutamente viciante de enormes e fescas vieiras cortas finamente como um carpaccio sobre as mangas em cubinhos minuciosa e perfeitamente cortados recebe um “punch” de temperos indianos com toque inconfundível de curry que parece surgir de lugar nenhum. É surpreendente. Ao elogiarmos ao antedente, ele ainda nos disse que era a mais nova inclusão ao menu. Pelo visto, vai ficar por muito tempo.

2º prato
Salmao Real do Alaska poche com espinafre e molho de pimenta verde
Um prato irretocável tecnicamente. Cozimento perfeito, acompanhamentos harmônicos e molho que envolvia tudo perfeitamente. Faltou algo de criatividade seja na combinação ou no preparo, mas senti que alguma coisa ficou devendo nesse prato.

Halibut selado com legumes envoltos em bacon, alface braseado e molho de presunto serrano
A carne branca perfeitamente cozida do peixe, com o molho salgado na medida e com fundo defumado do presunto é uma combinação imbatível. E esse prato me agradou muito pela complexidade de todos os ingredientes reunidos.

3º prato
Lombo de carneiro com seu jus, aspargus e ragu de kamp berry
Originalmente esse prato seria servido com crosta de azeitonas, mas como não gostamos, o Chef nos apresentou outra versão um pouco diferente da original. Nuna comi um carneiro tão macio. Aliás isso é uma das coisas que impressionou no Daniel. A perfeiçnao do cozimento de qualquer proteína. Vai ser meticuloso assim lá na… Não conhecia e nunca tinha provado a tal da kamp berry e ela acompanhava a carne quase que como um risoto, azedinho, de textura firme, quase crocante. Juntando tudo isso ao molho do próprio carneiro, e estávamos nas nuvens.

Costela confitada, wagyu selado, reducao da carne, batata gratinada, acelga soufle
Um prato encorpado, de tons escuros, e nos levava (lá vou eu viajando de novo) praquela mesa de madeira maciça, na beira de uma lareira com um tapete felpudo ao lado. Sensação imediata de conforto. Adorei a textura do wagyu, mas confesso que esperava um sabor de outro mundo, que nunca veio. A costela era um caso a parte, poderia comer uns 3 pratos só dela. Carne macia, desmanchando na boca, untuosa, saborosa… E a batata gratinada não devia nada à servida no CT Brasserie.

Sobremesa
Bolo de chocolate recheado de caramelo cremoso e sorbet de leite
Uma nova forma de chamar o batido petit gateau, mas tem também as suas diferenças. Tudo que tem chocolate e caramelo é automaticamente bom, mas se o chocolate for de altíssima qualidade e o caramelo feito à perfeição, aí faz a cabeça rodar. O sorbet de leite é um pouco estranho. O gosto puro e cristalino de leite é algo que não me encanta.

Abacaxi cozido ao capim limao com sorbet de coco e merengue de coco
Fuén… sobremesa comum. Para um restaurante 3 estrelas certamente esperava mais desse doce. Saí com a sensação de que poderia ter comido outro prato salgado maravilhoso. Mas também não sou amante de coco…

Mingardises
Essa é a hora que a Patroa adora, e realmente é um fechamento perfeito para o jantar. Chocolates, docinhos, bombons, e uma madrilene de fazer anjos descerem do céu para praticar o pecado da gula no inferno por ela. É tão boa assim!

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