Publicado por: Bernardo Annechino | 16/10/2010

Paguei pra ver: Mitsuba

Mitsuba
A Liberdade fica logo ali, na Tijuca

A discussão foi pra lá de acalourada. Quando cinco pessoas amantes da boa comida se reúnem e tentam jogar na mesa suas opiniões para debate o resultado nem sempre sai fácil. Foi assim quando ouvi falar pela primeira vez do Mitsuba, japa escondidinho ali na Tijuca que promete algo que é raríssimo no Rio: autenticidade. Se alguém fala em sushi e sashimi dos bons, aqueles de raiz mesmo, a primeira imagem que me vem à mente são aquelas casinhas revestidas de azulejo branco, enrustidas em algum beco escuro do bairro da Liberdade, em São Paulo. É assim tão ruim a situação dos restaurantes japoneses do Rio. Temos muitos, mas poucos de boa qualidade, onde a estrela é o peixe. Sem essa de sushi de foie gras (isso me tira do sério, apesar de adorar os dois, separados). Foi então que a sugestão de conhecer um restaurante pequeno, escondido e afastado dos grandes pólos gastronômicos cariocas pareceu ainda mais apetitosa. E como eu outros companheiros de mesa estavam ansiosos para experimentar a autêntica gastronomia de olhos puxados, com direito a sushiman de mesma origem (claro, com a ajuda de excelentes cozinheiros nordestinos, como não podia deixar de ser).

Acertados todos os confiltos de agenda, estávamos a Patroa e eu em frente a uma pequena casinha de dois andares numa esquina movimentada da Tijuca, sendo muito bem recebidos pelo Homero Cassiano, proprietário do Mitsuba e nosso cicerone pelo desfile de frutos do mar fresquíssimos que teríamos pela frente. A proposta era quase tão tentadora quanto o cardápio de peixes do dia escrito num quadro na parede com uma variedade quase inacreditável: Homero e Dudu Nakahara, Gerente de Culinária e responsável pelo preparo da nossa refeição, nos dariam uma amostra das delícias que são capazes de produzir. O menu era por conta deles. As explicações sempre precisas e apaixonadas eram do Homero, sempre com um brilho contagiante nos olhos e boas histórias para contar. Amante de peixes desde a minha infância pelas incontáveis pescarias com meu avô, fui acostumado a comer o peixe do dia (mesmo), às vezes assado ainda no barco. Portanto, estava no paraíso vendo tantas variedades de peixes algumas que sequer tinha experimentado.

E como o banquete foi grande, pedimos ajuda novamente ao Homero que gentilmente nos enviou depois uma lista com todos os pratos que provamos. Ela está transcrita abaixo na íntegra e para tentar não matar todos os leitores de tédio (todos os 3 que ainda estiverem acordados nesse ponto) vou dar uma nota de 1 a 4 estrelas (*) para cada prato sendo numa escala crescente de satisfação (quanto mais estrelas, mais gostei) e ao lado um comentário muito breve. Certamente voltarei para provar outras delícias e iguarias, e recomendo que quem aprecia peixes frescos em sua forma mais valorizada (crua mesmo) faça uma visita.

Da cozinha:

Ebi-kakiage – tenpura de ninho de legumes e camarão > ** chegou quente demais à mesa e um pouco gorduroso (nota da Patroa).
Ebi-geso-age – fritura de perninhas de camarão > **** surpreendente, perfumado, apetitoso, sequinho, crocante e saboroso; de lamber os dedos, todos devoraram na mesa (nota da Patroa).
Gobo-no-hijiki – raiz de bardana com alga japonesa > *** excelente entradinha, crocante, saborosa, com toque de acidez interessante.
Gyutan – língua de boi grelhada > **** textura surpreendente e sabor de churrasco, uma delícia, até a Patroa comeu.
Ebi-haru – rolinho de camarão, alho poró e catupiry > *** minha versão só com legumes veio sequinha, crocante e muito saborosa.

Do sushibar:

Maguro-tartar – canapé de atum picado e temperado > **** delicado, muito fresco e com um toque crocante de ovas, adorei.
Kajiki-usuzukuri – “carpaccio” de sailfish com molho de lima da pérsia, azeite, shoyushiso (folha oriental) > **** esse merece uma nota maior, pois sempre dei todos os sailfish que pesquei, porque cozidos em casa nunca prestaram. Agora já sei pra onde ir depois da próxima pescaria. Sabor delicado, fresco e totalmente diferente dos que já provei.
Hirame-usuzukuri – “carpaccio” de linguado com ponzu (shoyu cítrico) > ** o final tinha um amargor pronunciado que arruinou a delicadesa do peixe.
Maguro light – sashimi de atum envolto em fina capa de pepino, com masago (ovas de capelim), cebolinha e suave molho de miso (pasta de soja) > ** toque refrescante do pepino mas com paladar um pouco insosso dos demais ingredientes.

Sashimi
buri – olho-de-boi > **** o melhor sashimi da noite, com corte mais grosso, frescor inacreditável e sabor suave. Tive que repetir.
aji – xerelete > *** de sabor mais forte de peixe e textura firme não estava no seu auge.
shiromi – lírio > *** textura firme demais na boa e sabor leve
- katsuo – serra > **** primo do atum, com sabor pronunciado de peixe estava primoroso.
sawara – sororoca (cavala) > **** peixe subaproveitado de sabor marcante e textura incrível, estava extremamente fresco.
tai – pargo > ** com pele chamuscada, sabor pronunciado e textura firme, é dos meus favoritos, mas não mostrava o mesmo frescor dos demais.

Sushi
iwashi- sardinha > **** super fresca a textura é a grande estrela, e o sabor untuoso e delicado nem de longe lembra a sardinha frita. rolou bis.
aji-no-shiso – xerelete com pesto de shiso > **** o shiso eleva o prato a outra dimensão como um curry em uma bocada, mas não sobrepõe o peixe, foi um dos favoritos da noite.
shima-aji – faqueco > ** textura foi um problema, um pouco borrachuda, e o sabor não encantou.
shime-aji – xerelete marinado > ** sabor interessante mas nada de especial.
sakana-tenp – tenpura de linguado com shisopesto de ume (ameixa japonesa) > *** bom contraste de texturas e sabores.
engawa – barbatana de linguado > **** surpreendente, a textura firme desagradou a Patra mas não me incomodou, o sabor mais delicado que eu imaginava, uma iguaria.
hotategai – vieira chilena > ** apesar da pela aparência, o sabor ficou escondido.
tarako – ovas de bacalhau > * definitivamente para paladares mais experimentados, quase não consegui engolir.
sawara – sororoca (cavala) > **** peixe pouquíssimo utilizado de textura espetacular e sabor próprio, delicioso.
salmão brûlé – com flor de sal > **** uma das estrelas da noite, chamuscado por cima com o maçarico, um gominho de laranja e a flor de sal fizeram a combinação perfeita.
toro – atum gordo > ** decepcionou pela textura fibrosa e pela falta da tão apreciada untuosidade do Toro.
maguro-kimuchi – atum com pimenta coreana ao molho de soja > **** mais um dos meus favoritos, uma versão muito mais autêntica e saborosa do batido spicy roll, com sabores equilibrados na medida.
hirame-ponzu – linguado com ponzu (shoyu cítrico) e nabo apimentado > ** o peixe se perdeu um pouco nos sabores agregados
tako – polvo com molho teriyaki à base de mel > *** esperava mais da textura do polvo, mas a leveza e o sabor do teriaky compensaram.
masago-wasabi – ovas de capelim temperadas com raiz forte > **** delicioso, potente e com a textura crocante das ovas mais frescas.
hirame-nametake – linguado com conserva de cogumelos > ** sobressaiu o sabor da conserva sobre o peixe.
anago – enguia-do-mar com sansho (espécie de pimenta perfumada) > ** de sabor forte e textura mais firme, não é para os iniciantes.
asari – vôngole com molho de ostra e casca de limão > ** meu vôngole teve uma areia chata e sabor pouco presente.
- tai – pargo > *** o sabor presente do peixe na medida certa.
kani-kama – caranguejo chileno (centolla) > * maior decepção da noite, como fã de centolla fiquei esperando um sabor que não veio.

Trocando em Miúdos
Mitsuba
Onde: R. São Francisco Xavier, 170 – Tijuca
Tipo: Japonesa
Comida: :-)
Ambiente: :-/
Serviço: :-D
Conta: $$$$$


Respostas

  1. Grande dica, Bernardo. Vou ao Mitsuba com uma freqüência maior do que a de$ejável em termos de orçamento e menor do que a desejável em termos de desejo mesmo… Um grande achado que eu achei, ainda bem, há anos. E o Homero é dos grandes. Valeu!

  2. Hoje mesmo eu havia marcado com um casal de amigos para almocarmos um japones amanha. Mitsuba, claro!

  3. Meu caro, esqueceu de experimentar o Shimesaba (cavalinha marinada). Dos sushis, é o meu predileto. Experimente na próxima!

    O restaurante também serve alguns pratos que, por incrível que pareça, não estão no cardápio atual, só no antigo. Algumas opções de Udon e, eventualmente, Kare Raisu. Comidinhas que dificilmente encontramos no RJ, uma pena!

    Amo o Mitsuba pela sua variedade, qualidade e tradição! Comida japonesa não é só sushi e sashimi de atum e salmão…

    hmm… deu vontade de comer um bentou ou sashimi teishoku!

    Abraços

  4. [...] jurados para um jantar bem agradável no até então por nós desconhecido Mitsuba (veja crítica aqui) definimos que a próxima visita seria mais do que justa se fosse à vencedora do Prêmio RioShow [...]


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.